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AGÊNCIA BRASIL: Morre no Rio o ex-senador Abdias Nascimento

Vladimir Platonow
Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – Ativista político e precursor do movimento negro no país, o ex-senador Abdias Nascimento morreu ontem à noite (23), aos 97 anos, vítima de complicações decorrentes de diabetes. A informação foi confirmada pela fundação que ele mantinha e também por integrantes do movimento negro. Abdias estava internado há dois meses no Hospital dos Servidores do Estado, no centro do Rio.

A trajetória de vida do líder negro foi destacada pelo fundador do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), Ivanir Santos. “Foi um lutador incansável pela igualdade racial no Brasil, em defesa das comunidades negras. Tanto em suas contribuições no teatro quanto nas artes plásticas e na política, ele sempre levou à sociedade a denúncia do racismo”, frisou Ivanir.

A luta de Abdias pela instituição de cotas nas universidades foi lembrada pelo diretor executivo da organização não governamental (ONG) Educafro, Frei David dos Santos. “O Abdias deixa um legado fortíssimo. Ele tinha uma convicção: jamais o Brasil será melhor, se o negro não tiver melhores condições e oportunidades. Em 2005, quando fazíamos um protesto em frente à UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], Abdias fez questão de participar, mesmo em cadeira de rodas”, recordou Frei David, que ainda cobra da universidade maior presença de alunos negros nos cursos.

Abdias Nascimento também teve participação no jornalismo, com registro profissional desde 1947 no sindicato da categoria, conforme lembrou Angélica Basthi, da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-RJ).
“Ele foi, durante muito tempo, uma das principais – se não uma das únicas – vozes de combate ao racismo. Deixa de legado a necessidade de se dar continuidade à proposta de corrigir desigualdades com base na raça e na cor e também prosseguir com as ações e os sonhos que ele teve, de uma sociedade mais justa e mais igualitária”, disse Angélica.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro lançou este ano o Prêmio Abdias Nascimento, que está com inscrições abertas até 19 de agosto. Entre os assuntos sugeridos para as matérias que poderão concorrer ao prêmio, estão saúde da população negra, intolerância religiosa, juventude negra, ações afirmativas, empreendedorismo, desigualdades, direitos humanos, relações raciais, políticas públicas, comunidades tradicionais e discriminação racial.

Nascido em 1914, no município de Franca, em São Paulo, Abdias Nascimento começou cedo a luta pela igualdade racial. “Em 1936, ele foi preso por protestar contra a exigência de entrar numa boate da capital paulista pela porta dos fundos, por ser negro”, lembrou a esposa, Elisa Larkin Nascimento, diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro).

Em 1944, já vivendo no Rio de Janeiro, ele fundou o Teatro Experimental do Negro. Marco na luta pela cidadania do artista negro, o grupo contribuiu para a formação profissional de dezenas de atores. O jornal Quilombo, criado por Abdias em 1947, já abordava questões que só bem mais tarde foram concretizadas em políticas públicas no Brasil.

O ativista sofreu pressões durante a ditadura militar e ficou exilado 13 anos nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Abdias Nascimento iniciou carreira política, tendo sido deputado federal, nos anos 80, e senador, de 1991 a 1992 e de 1997 a 1999 pelo PDT.

Edição: Nádia Franco//Matéria alterada às 18h49 para correção de informação

FONTE: http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-05-24/morre-no-rio-ex-senador-abdias-nascimento

AFROPRESS: Brasil fica mais pobre: Abdias, o guerreiro da luta negra partiu

Por: Redação – Fonte: Afropress – 24/5/2011

Rio – O poeta, artística plástico, jornalista, ator, diretor teatral, ex-senador da República e principal ícone vivo do Movimento Negro brasileiro, Abdias do Nascimento, morreu na manhã nesta terça-feira (24/05, no Hospital do Servidor, no Rio, onde estava internado desde o dia 19 de abril.

Abdias, com 97 anos, estava internado na Unidade Coronariana com problemas cardíacos. Ele nasceu em Franca, S. Paulo, em 1.914, e teve uma trajetória longa e produtiva em defesa da igualdade para a população negra brasileira. Foi o criador do Teatro Experimental do Negro, em 1.944.

Depois de voltar do exílio, em 1.978, entrou na vida política, onde se elegeu deputado Federal de 1.983 a 1.987, e senador da República, de 1.997 a 1999, pelo PDT. Foi um dos incentivadores da criação do Movimento Negro Unificado, em 1.978. É Doutor Honoris Causa pela Universidade de Brasília e autor de vários livros, entre os quais “Sortilégio”, “Dramas para Negros e Prólogo para Brancos” e “O Negro Revoltado”.

Foi professor Benemérito da Universidade do Estado de Nova York e Doutor Honoris Causa também pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Sua mulher, a norte-americana Elisa Larkin, ainda e a família ainda não sabem informar quando será o enterro do velho combatente pela igualdade no Brasil.

A notícia da morte do velho líder, divulgada pela família pela manhã, causou tristeza e consternação nas lideranças negras brasileiras.

FONTE:  http://www.afropress.com/noticiasLer.asp?id=2660

TERRA: Morre Abdias do Nascimento, o “único negro brasileiro”

por Claudio Leal

O único negro brasileiro, pois não. Abdias Nascimento surgia nas crônicas hiperbólicas de Nelson Rodrigues como um militante irredutível, capaz de esfregar “a cor na cara de todo o mundo”, numa solitária consciência racial. “Não conte com o Brasil, não conte com o brasileiro”, desaconselhou Nelson, ao vê-lo colher apoio para um movimento contra o apartheid na África do Sul, em 1968. “Somos não sei quantos milhões!”, reagiu Abdias. Naquele tom de espírito de porco, mas comprometido com o incipiente movimento negro, o dramaturgo enunciou o óbvio ululante: “Abdias, só há um negro, que é você mesmo. Não milhões, você, Abdias, só você”.

Abdias morreu nesta terça-feira (24/05), aos 97 anos, no Rio de Janeiro, sem jamais ter deixado de denunciar as perversões sociais da escravidão: “Há preconceito racial no Brasil”, repetia até nas mais discretas oportunidades. Fundador do Teatro Experimental do Negro (TEN), em 1944, ele ajudou a constranger o racismo nos palcos brasileiros, tirando a temática negra das coxias, acompanhado por artistas como Ruth de Souza, Santa Rosa e Milton Gonçalves. O TEN encenou Eugene O’Neill (Todos os Filhos de Deus Têm Asas), Lúcio Cardoso (O Filho Pródigo) e Joaquim Ribeiro (Aruanda), além de editar o jornal Quilombo, o braço editorial que aprofundava o debate teórico sobre o negro brasileiro, com colaborações de etnólogos do nível de Guerreiro Ramos, Arthur Ramos e Édison Carneiro.

Era um extraordinário provocador. O Concurso de Artes Plásticas, com o tema do “Cristo Negro”, atraiu as promessas de inferno da Igreja Católica. Nelson Rodrigues inspirou-se no amigo para escrever a peça “Anjo Negro”, mas frustrou-se seu velho desejo, não conseguiu levá-lo a interpretar um dos protagonistas. A fixação do escritor vingou em “Perdoa-me por me traíres”, na qual Abdias interpreta o deputado Jubileu de Almeida. Este nome pomposo veio de uma brincadeira onomástica do psicanalista Hélio Pellegrino; para o “Homero do Subúrbio”, “jubileu” estava mais para o nome de um deputado. Se quer saber, o jubiloso parlamentar só eriçava a sua juba quando uma mulher o chamava de “reserva moral da Nação!”.

Abdias não dispensou atropelos em outras personalidades essenciais para a valorização das contribuições do negro à cultura brasileira; talvez por vaidades arranhadas ou radicalismos infundados. Às vésperas da 2ª Conferência de Intelectuais da África e da Diáspora (Ciad), realizada em 2006 na capital baiana, fui pautado pela brilhante repórter Cleidiana Ramos, editora do blog “Mundo Afro” do jornal A Tarde, para ouvi-lo sobre a homenagem que seria prestada a sua militância pioneira no Brasil.

Perto do fim da conversa, naquela altura em que entrevistado e entrevistador parecem exaustos do confessionário, saiu-me, por algum diabo, o nome de Pierre Verger (1902-1996), o fotógrafo e etnólogo francês radicado em Salvador, autor do clássico estudo “Fluxo e Refluxo do tráfico de escravos entre o golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos”. Verger, Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi integram o conselho de deuses da Roma Negra. “Era um canalha!”, revidou Abdias, do outro lado da linha, como um personagem rodrigueano vocacional. “Era um canalha. Eu via como os negros se curvavam diante de Verger. Se os negros brasileiros tivessem vergonha na cara, escarravam na cara dele!”, completou, à beira de cumprir a sugestão, num imaginário torneio de cuspe à distância.

O “único negro” exerceu por duas vezes o mandato de senador, sob a liderança política de Leonel Brizola, no PDT. Por sobreviver ao século 20, Abdias alcançou conquistas impensáveis na década de 40, ainda que nunca tenha admitido a existência da tão surrada democracia racial. Mas poderia comemorar as cotas para negros nas universidades, um teatro menos eurocêntrico, o triunfo de jogadores como Pelé e Didi, a criminalização do racismo, a liberdade de culto do Candomblé, a liderança de Nelson Mandela na África do Sul e a recente vitória de Barack Obama nos Estados Unidos.

“Acompanhei a luta dele (Obama), sofri com o que ele deve ter sofrido nessa campanha. Não foi uma coisa fácil. E o desassombro de ver um negro liderar no mundo. No Brasil, que tem essa fama toda de democrático, me lembro como fui esmagado quando fui senador”, remoeu Abdias, em entrevista a Terra Magazine. Em março de 2011, numa cadeira de rodas e com sua bata africana, ele compareceu ao Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ansioso pelo primeiro discurso de Obama aos brasileiros. A ansiedade de quem ia à pré-estreia de uma peça sempre adiada pelo Teatro Experimental do Negro – e pelo Brasil.

FONTE: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5147512-EI6581,00-Morre+Abdias+do+Nascimento+o+unico+negro+brasileiro.html

G1: Morre no Rio Abdias Nascimento, ativista do movimento negro

Ex-senador e ex-deputado faleceu aos 97 anos.
Ativista estava internado há dois meses.

Do G1 RJ

Ativista do movimento negro Abdias Nascimento morreu na noite de segunda-feira (23). A informação foi confirmada pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) na tarde desta terça-feira (24).

(Veja ao lado vídeo sobre a exposição comemorando os 90 anos de Abdias, em 2004)

Segundo Ivanir Santos, do conselho estratégico do Ceap, Abdias, de 97 anos, estava internado no Hospital dos Servidores, no Centro do Rio, há dois meses e sofria de diabetes.

De acordo com nota enviada pelo hospital, ele teve uma insuficiênica cardíaca na unidade. Ainda segundo o hospital, ele estava internado por complicações cardíacas desde o dia 15 de abril.

Ativista desde a década de 1930, Abdias fundou o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944 e criou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro Brasileiros (Ipeafro) em 1981 para continuar sua luta pelos direitos do povo negro, sobretudo nas áreas da educação e da cultura.

(Veja  ao lado entrevista de Abdias no Espaço Aberto, da Globo News, em 2004)

Abdias também foi deputado federal, senador e secretário de Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro, de 1991 a 1994.

O velório e enterro do ativista ainda não têm local nem data definidos.

O Ceap divulgou uma nota no fim da tarde. Veja a íntegra:

“O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP) manifesta seu profundo pesar pela morte do líder e companheiro Abdias do Nascimento, ocorrida ontem, 23 de maio, às 22:50h. Foi Abdias, para o Movimento Negro, uma lição de coragem, retidão caráter e perseverança em sua luta sem fronteiras de combate ao racismo e pela cultura afro-brasilera.”

O governador Sérgio Cabral lamentou a morte do ativista. Leia nota na íntegra:

“Abdias Nascimento foi um grande homem e pioneiro na luta pelos direitos dos negros no Estado do Rio de Janeiro, servindo de exemplo para todo o país. Foi, durante toda a sua brilhante trajetória de vida, um ativista incansável. É incontestável que Abdias Nascimento tenha exercido papel fundamental na garantia dos direitos à população negra. A sua morte é uma perda para toda a sociedade, mas o seu exemplo e as suas conquistas serão para sempre reconhecidos”.

Fonte: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/05/morre-no-rio-abdias-nascimento-ativista-do-movimento-negro.html